09.11/2018 | Murillo Costa
Fábrica 239

Fábrica 239

Fábrica 239

As sombras me escondem dentro da sala de itens confiscados. Há algo misterioso nesse lugar que prende minha atenção. Pelo que já aprendi deles, os humanos diriam que são as “vibrações” e “energias” dos objetos apreendidos. A única energia que conheço é a da guerra que assolou meu planeta e me trouxe para o deles, para conquistá-los.

Conseguimos. Fundamos nossa base operária no que eles chamam de Terra. Para nós, Pista de Pouso 18. Exterminamos seus governos, seus sistemas comerciais. Destruímos sua sociedade. Fizemos deles nossa força de trabalho. O calor da conquista de um mundo ainda não tocado pelo império Vícan nos fez sentir a vitória sobre os insurgentes que se escondem em algum lugar do espaço, atacando e roubando planetas imperiais periféricos.

Mas eu estou aqui nessa sala, olhando para os pertences recolhidos dos humanos que chegaram à Fábrica 239, tentando entender o que me fez vir aqui. A lanterna embutida no capacete da minha armadura ilumina tudo com uma luz dura. Numa fotografia há uma família na frente de um fundo branco. “Que ridículo”, sussurro. Se meu planeta fosse tão verde quanto esse, escolheria algo melhor que um fundo branco.

Dou um passo para o lado e chuto alguns pares de calçados largados debaixo da alta prateleira. Uma caixa de papelão guarda mais fotos – famílias, filhos, casais, alguns solitários retratos. Tão frágeis, tão pequenos. Jamais imaginavam que uma guerra interplanetária os alcançaria.

Olho nos olhos de um homem alto, na meia idade humana, com uma proeminência em sua região abdominal. Onde estará agora? Dormindo em alguma cela nos pisos acima da minha cabeça ou morrendo em alguma enfermaria depois de chegar ao esgotamento? Amasso a foto e a jogo na caixa. Ela nunca voltará para a mãos de seu dono.

Ao lado da caixa de papelão há uma pequena caixa de madeira. A abro sem tirá-la do lugar e uma música escapa dela, o que me faz fechá-la imediatamente. Envolvo a caixa com as duas mãos e a trago para mim. A superfície brilhosa da tampa de madeira reflete minha imagem: meus olhos alongados e negros com pontos claros aglomerados ao centro, pele verde. Devemos ser monstros para nossos prisioneiros, assim como eles são molengas e repugnantes para nós.

Eu, monstro? Vicanianos são monstros.”

Abro mais uma vez a caixa e a música toca. Uma pequena humana de plástico, modelada com os braços arqueados acima da cabeça, gira no meio.

Patético!”

Gonther!”

O chamado me faz fechar a caixa num só golpe. A devolo à prateleira. Na porta da sala vejo a luz de mais um capacete. Caminho até lá.

– Algum problema? Já conseguiram resolver a energia?

– Não – diz Mortur, meu companheiro de patrulha. – Os migdacronianos estão doidos lá em baixo, mas provavelmente os geradores só voltam de manhã. O que faz aqui?

– Nada demais – olho para trás. – Pensei ter visto movimento. Devia ser um daqueles roedores desse planeta.

– Prefiro os daqui do que os de três metros de Gongla.

Nossos comunicadores disparam ao mesmo tempo.

– A nave de transporte chegou, temos de ir para a pista – digo.

– Você faz as boas-vindas dessa vez?

Faço”, respondo enquanto caminhamos para fora do prédio-dormitório.

Atravessamos o pátio, passando pelos hangares de reparo. Todo o complexo da Fábrica 239 em escuridão total, salvo apenas pelas luzes dos capacetes dos guardas e das torres de observação norte e sul.

Nos fundos dos hangares há uma cerca que separa a área de trabalho da pista de pouso, a qual acessamos passando por uma guarita de identificação. Somos recebidos pelo encarregado de pousos, um vicaniano do planeta Migdacron, baixo e de cabeça oblonga, pele cinzenta e quatro braços.

Mortur e eu nos juntamos ao restante do nosso esquadrão e nosso comandante logo aparece, vindo da sala de controle da pista – Mivorg, um vicaniano legítimo, do planeta Vícan, raça imperial pura.

– A nova remessa de humanos vai chegar em dois minutos – ele é quase duas vezes maior que nós, apoiado em quatro pernas e coberto por uma carapaça natural por debaixo de sua armadura. Quem se voluntaria para dar as boas-vindas?

Eu, senhor!”, digo antes de qualquer um.

Os olhos vermelhos se viram para mim.

– Qual seu nome?

– Gonther.

– Muito bem – diz o comandante, sua mandíbula com presas proeminentes movimentando-se com firmeza. – Gonther fará as boas-vindas. Se não sair como deve ser feito, será rebaixado para faxineiro de celas.

– Sim, senhor! – respondo, confiante.

Ficamos de pé, em silêncio e em formação. Um bloco de criaturas altas, verdes e armadas. Gonglorianos esperando um carregamento de escravos humanos. A penúltima parte da pirâmide do império Vícan esperando pela base. E eu esperando pela chance de provar que consigo subir mais um degrau.

As luzes e o barulho dos motores da nave de transporte são percebidos no céu e se aproximam de nós. Enquanto paira acima de nós, os grandes propulsores voltam-se contra o chão e ela começa a descer. Poeira levanta e baixamos as viseiras dos capacetes.

O pouso faz o chão vibrar.

Pouso encerrado. Liberar acesso da tripulação.”, ouço o encarregado de pousos dizer em seu comunicador. Instantes depois, uma escotilha se abre na parte dianteira da nave e um outro gongloriano desce.

– Nave de transporte com entrega de humanos, senhor – ele dá ao migdacroniano uma pequena esfera e quando este a aperta, um holograma se forma na frente dele.

Liberado”, ele confirma a nosso comandante.

– Marchando! – o vicaniano nos ordena.

Andamos todo o cumprimento da nave até chegarmos na parte final, onde o piloto aciona um painel de controle e uma comporta se abre. As luzes de nossos capacetes iluminam vários rostos humanos assustados. Eles se espalham pelo compartimento de carga, agarrados uns aos outros, refugiados na parede oposta à saída. Ouço a respiração funda, corações batendo em pânico.

O comandante olha para mim. Chegou a hora mostrar meu trabalho.

– Para fora, humanos! – digo alto o suficiente para minha voz reverberar nas paredes metálicas do compartimento, mas eles não reagem. – Esquadrão, apontar armas!

Meus colegas levantam suas armas e miram nos humanos. O choramingo começa.

– Cinco segundos para descerem, em fila! – digo e começo a contar. Quando chego a três, a fila já foi formada e os prisioneiros começam a descer pela rampa. – Agrupem-se em fileiras de cinco!

A saída da nave não demora muito. Trinta novas forças de trabalho. Fico frente a frente com eles. Tiro o capacete. Eles sempre se impressionam com a aparência de qualquer extra-terrestre. Nós, gonglorianos, parecemos impactar mais que os vicanianos. Nossa forma – alta e esguia, cabeças grandes e afinadas no queixo, olhos alongados e pele verde – parece satisfazer a ideia de “imagem alienígena” criada e alimentada pelos humanos há muitos anos.

– Bem-vindos à Fábrica 239, humanos. Aqui vocês trabalharão na montagem e reparo de naves. Essa é a nova casa de vocês. Cumprirão seu dever para com o Império Vícan até que este os isente do serviço.

Dou um passo e caminho na frente deles.

– Existem quatro regras que deverão ser cumpridas e só iremos dizê-las aqui e agora. Regra número um: a comida será proporcional ao trabalho. Sirvam o quanto for exigido e serão alimentados por isso. Regra número dois: silêncio absoluto. Só podem falar quando isso for solicitado por nós; a regra vale até dentro de suas celas. Regra número três: tentativas de fuga serão punidas com morte imediata. Só para inibir qualquer pensamento que tenha sobre isso, saibam que fugir da Fábrica 239 é impossível. Regra número quatro: se chegaram à exaustão e não conseguirem mais trabalhar, serão executados.

Paro de andar e os encaro de frente, como um todo.

– Vamos!

Me viro e meu esquadrão se divide, cercando os recém-chegados em ambos os lados para escoltá-los até o pátio interno.

Está indo bem, soldado”, o comandante caminha do meu lado. “Obrigado, senhor!”, respondo ainda encarando o caminho à frente. “O comité de boas-vindas já está preparado”, ele diz e entra em silêncio.

Passamos pelos hangares e entramos no espaço aberto entre eles e o galpão que abriga as linhas de montagem e produção – desligadas agora pela falta de energia. No meio do pátio, um segundo grupo de humanos nos espera. Eles estão acorrentados e sentados no chão. São vigiados por um segundo esquadrão.

Avanço e me viro para os novos.

– A Fábrica 239 tem espaço limitado. Para novas forças de trabalho chegarem, antigas precisam sair. Esses humanos não conseguem mais produzir o quanto exigimos. A velhice, a doença ou o esgotamento fez deles inimigos do Império Vícan. Merecem execução. Esquadrão!

Meus companheiros deixam a escolta dos novos presidiários e se juntam aos gonglorianos que mantêm os humanos sentados no meio do pátio. Eles formam um círculo em volta deles. Mais choramingo e olhos fechados cochichando algo ininteligível.

– Armas! – ordeno ao me virar para os soldados.

Os levantam suas armas contra os acorrentados.

O choramingo aumenta.

Uma mulher tenta desesperadamente romper as correntes, mas só machuca seus pulsos que já estão em carne viva.

– Carregar! – ordeno mais uma vez.

O agudo das baterias das armas carregando enchem o ar.

Não podem fazer isso!”

Respiro fundo. “Por que hoje?”. Sinto um rosnado de ódio se formando na garganta do comandante. Ele não pode tomar conta da situação antes que eu a domine. Ou nunca mais pisarei em Gongla.

– Quem quebrou a regra número dois? – os encaro. – A voz foi masculina. Posso mandar todos os homens para o círculo de execução!

Todo o grupo me encara. Quase todos tremem de medo.

– Não podem fazer isso com a gente! – o corajoso na terceira fileira, um homem não tão alto e não tão forte, reafirma sua rebelião.

Passo entre os humanos das primeiras fileiras e o agarro pelo pescoço com apenas uma mão, alavancando-o do chão. Ele agita as pernas e soca meu pulso enquanto tenta respirar.

Você acabou de se tornar inimigo do Império Vícan e receberá a punição merecida!”, digo enquanto o carrego pendurado até o círculo.

– Aponte para um humano!

Ele se contorce em minha mão. Seus olhos já estão vermelhos e com pequenos pontos de sangue. Ele ergue o dedo para a mulher que tentava se livrar das correntes.

– Soltem ela. Ele morrerá no lugar.

Mortur abaixa sua arma e vai até a mulher, liberando-a da corrente por dar um fraco tiro de energia nas argolas de metal.

Você, libertada, em formação!”, digo a ela. A mulher corre para as fileiras e assume o lugar do homem.

Dobro a força na minha mão. Lágrimas escorrendo dos olhos do homem. Sinto em meus dedos os ossos de seu pescoço se partindo. Espasmos incontroláveis tomam conta do corpo dele e o jogo no chão, onde acaba de morrer.

– Espero que isso faça vocês entenderem como as regras são importantes dentro da Fábrica 239! – digo aos novatos. – Fogo!

O barulho fino dos riscos de energia cortando o ar inundam nossos ouvidos, ao mesmo tempo dos gritos finais dos executados.

– Agora vocês vão recolher os corpos e levá-los aos decompositores. Agora!

As fileiras se desmancham e os humanos vão para o serviço.

– Foi interessante como lidou com a rebelião – o comandante me diz. – Me explique suas decisões.

– Ele nos desafiou na frente de outros humanos. Se nada fosse feito, todos sentiriam que também poderiam nos desafiar. Em um médio prazo, todos os humanos da fábrica poderiam fazer o mesmo. Decidi libertar um humano para equivaler e não desfalcar as linhas de produção. Trinta vivos por trinta mortos. Decidi eu mesmo matar o rebelde porque ele não estava preso às correntes, poderia correr e causar um maior impacto em seu ato de rebeldia.

O comandante me encara, me fazendo tomar a ação cruzada de encará-lo também.

– E porque você mesmo não escolheu o humano a ser liberto? Por que deu essa escolha ao rebelde?

Abro a boca, mas nenhuma resposta sai dela.

– Foi para fazer o rebelde sentir que, mesmo condenado, conseguiu salvou alguém? – os olhos vermelhos do comandante vasculham os meus.

– Não, senhor! – balanço a cabeça em negativa. – Não, senhor!

– Ótimo – ele olha para os humanos recolhendo os corpos. – Talvez você esteja mais próximo de Gongla depois dessa noite.

Ele deixa o lugar.

Ótimo trabalho!” Mortur bate a mão em meu ombro.

No dia seguinte, pouco mais de duas horas antes do sol nascer, nosso esquadrão está na frente do Pavilhão 1, onde ficam os humanos do turno diurno de trabalho. Eles saem de suas celas nos andares acima de nós e se enfileiram em nossa frente. “Andando!”, Mortur dá a ordem. Os escoltamos para dentro do galpão de trabalho, repleto de máquinas e esteiras.

Enquanto os cem humanos tomam seus lugares, fico no meio do galpão, na frente de um grande forno de fundição. O silêncio é seguido à risca. Olho para os soldados que consigo ver, todos em suas posições, supervisionando os seus. Uma luz pisca no comunicador atado a meu punho e o levo até a boca.

Segundo setor, pronto!”, digo.

Passam-se cinco segundos e uma sirene é tocada duas vezes. A energia é liberada no galpão e as máquinas ligam-se. Mais um dia de trabalho se inicia. De relance, vejo um par de olhos azuis me encarando pouco antes de se voltarem para a esteira de produção. Talvez a coisa que mais me impressiona nos humanos são seus olhos de várias cores. Gonglorianos têm olhos completamente pretos com pintas azuis, sem qualquer variação.

Logo sinto o calor de forno atrás de mim. Me lembra o calor de Gongla e seus desertos cheios de lixo do Império Vícan. Para quem cresceu num planeta de recicladores, ter um cargo militar na Pista de Pouso 18 não é nada mal.

Uma grande peça de motor de nave passa na esteira à minha frente. Ela irradia calor por ter acabado de receber metal do forno de fundição.

Os dois humanos que trabalharão nela trocam um olhar. Eles já sabem o que precisa ser feito, não necessitam trocar informações. Cada um faz a sua parte em construir e reparar as peças das naves de guerra Vícan.

AAAAHHH!!!”, o grito enche o galpão. Todos os humanos próximos param seus serviços e olham para seu companheiro contorcendo-se de dor enquanto parece estrangular o punho esquerdo com a mão direita. Desesperado, ele vem em minha direção. Vejo sua palma em sangue, pele consumida pelo metal intensamente quente que estava por cima da peça do motor.

– De joelhos, humano! – tento gritar acima do volume que ele mesmo está gritando. – De joelhos!

O homem me ignora. “PRECISO DE AJUDA! MÉDICOS! MINHA MÃO!”, ele está cada vez mais perto de mim. Os outros trabalhadores estão imóveis e as esteiras pararam.

– Fique de joelhos, a ajuda já está vindo! – digo.

Ele me obedece. Vejo um tom dúbio em seus olhos. Olho para os lados, para os outros humanos. “Ele não é novato. Como cometeu um erro tão principiante?” A resposta vem logo em seguida: mais rápido do que pude prever, o homem leva as mãos às costas e retira da cintura uma curta e fina barra de ferro. Mal a vejo atravessar o ar em direção a mim. Sinto o impacto dela penetrando em minhas costelas.

Pareço obedecer à minha própria ordem e caio de joelhos, segurando a barra enfiada em mim. O caos se instala no galpão. Humanos atacam nosso esquadrão com qualquer ferramenta com porte para matar.

Antes que eu sofra mais algum ataque, ergo minha arma e disparo contra meu agressor, vaporizando sua cabeça. Minha visão fica turva e sinto o sangue quente escorrendo por debaixo do meu traje. Me arrasto até o forno e recosto nele, arfando. Ouço gritos e disparos vindos de todos os cantos. Alarmes reverberam no galpão e as portas se fecham.

Estamos presos numa pequena zona de guerra. “Os humanos pegaram três de nossas armas!”, ouço no comunicador. Faço as contas, eles são mais que nosso dobro. Mesmo que matemos muitos deles, com nossas armas, eles nos vencerão.

Fecho e abro os olhos tentando focar alguma coisa. Vejo as planícies férteis de Gongla. Vejo minha mãe colhendo; escuto meus irmãos correndo em volta dos arbustos de sangue.

Hei!”, alguma voz fala perto de mim. “Hei! Acorde!”, a voz é feminina. Minha cabeça é balançada por suas mãos. De repente, recobro a consciência e junto a mim está a dona dos olhos azuis.

– Não sei como seu corpo funciona, mas esse negócio preto saindo de você só pode ser sangue – ela olha em meus olhos, talvez imaginando que eu não esteja consciente o suficiente para entender. – Isso vai doer!

Suas mãos envolvem a barra de ferro e a pressão dela saindo de mim me faz gritar. A humana se afasta e só sei onde esteve quando volta com a ponta da barra de ferro em incandescência – ela foi até o forno e esquentou a peça.

– Isso vai doer mais ainda, mas, pelo menos, você não vai morrer!

O chiado e cheiro de carne fritando são imediatos, assim como meu grito a plenos pulmões. A dor é tão intensa e lancinante que sinto o conteúdo em meu estômago vir à tona – mal dá tempo de eu virar a cabeça para jateá-lo no chão.

De repente, uma força imensa arranca a humana de perto de mim. Ela grita. Olha para cima tentando focar. É Mortur. Ele a arrastou para a biqueira do forno, onde uma brilhante, quente e mortal corrente de metal líquido escorre. Estrangulando-a, ele aproxima cada vez mais a cabeça da humana do metal fundido. Ela se debate numa tentativa inútil de se desvencilhar dele.

– Não – digo, mas ele não ouve. – MORTUR, PARE!

Ele vira a cabeça para mim enquanto mantém a face da mulher há poucos centímetros do metal.

– Ela me salvou – respiro fundo. – Ela não me atacou. Ela me salvou – indico a cauterização grosseira e ele entende o que a barra de ferro fazia nas mãos dela. Ela a solta, jogando-a no chão.

Um par de portas se abrem e três esquadrões de gonglorianos entram no galpão, atirando e reprimindo os rebeldes. Uma grande sombra de olhos vermelhos aparece na porta. Comandante Mivorg.

Os soldados não demoram muito para dominarem e extinguirem o ato de rebelião. Ao final, alinham os humanos sobreviventes em dois grandes blocos de fileiras.

– A produção ficará suspensa até segunda ordem – Mivorg entra no galpão. – Esquadrões 7 e 8, desçam todos os outros humanos nas celas para o pátio. Todos. Esquadrão 9, conduza esses rebeldes para o meio do pátio. Agora!

Encurvado, me ergo e entro em formação, junto a meus companheiros do Esquadrão 9. Ao passar pelo comandante, ele me para colocando uma mão no meu ombro.

– Tem condições de prosseguir, Gonther, ou precisa de enfermaria?

– Tenho condições, senhor.

Ele me solta e continuo. Mortur está do meu lado.

Já sabe o que vai acontecer, não é?”, sussurro.

É claro!”

Por que aquela humana me salvou?”

É melhor você calar a boca, Gonther, ou nós seremos executados junto com eles!”

Minhas pernas tremem. O ferimento ainda dói e queima. Pouco a pouco, os outros humanos que estavam em suas celas são enfileirados no pátio, de frente para os rebeldes.

– Nesta manhã houve um atentado contra a ordem da Fábrica 239 e contra a soberania do Império Vícan sobre a Pista de Pouso 18. Todos esses humanos são condenados de rebelião e assassinato de sete soldados gonglorianos. Para que se perpetue como exemplo para vocês, tanto recém-chegados quanto veteranos, eles serão executados imediatamente! – Mivorg diz.

Vejo os olhos azuis da mulher serem tomados de terror.

– Esquadrão 9, nomeiem seu líder para a tarefa! – o comandante nos encara.

Tem de ser eu!”, o pensamento atravessa minha mente.

Mortur ergue a mão.

Senhor! Meu trabalho com as boas-vindas foi bem executado e tive sucesso em lidar com ato de rebelião”, digo, quebrando todos os protocolos cabíveis. “Além disso, preciso recuperar minha honra em frente aos humanos”, exponho meu ferimento. “Fui o primeiro a ser atacado. Por sorte não me juntei a meus irmãos mortos. A rebelião começou em mim e terminará por mim, se o senhor permitir.”

Ele vasculha minha face com seus olhos imponentes.

– Que seja – diz ele. – Mas faça agora!

Respiro fundo e vou à frente do esquadrão.

– De joelhos, humanos! – ordeno. Todo o grupo obedece sem resistência. – Esquadrão, posições! – os soldados circulam o grande grupo. Olho para a humana de olhos azuis. Ela está com a face voltada para o chão. O que faço agora?

Dou dois passos para trás. Meu corpo gela. Essa pode ser a assinatura da minha própria ordem de execução.

– Senhor, acredito que há um destino melhor para uma dessas humanas.

Mivorg dá pesados passos em minha direção. Pela expressão em seu rosto serei partido em dois a qualquer momento, por isso não espero autorização para continuar falando:

– Vejo uma humana que será mal aproveitada pelo Império Vícan se for executada agora. Ela está na faixa de idade apropriada para a Fábrica 0. Com as recentes perdas de mão de obra nas insurgências equatoriais, talvez o senhor concorde que aquela humana honrará o grandioso Império Vícan se for usada na geração de novos humanos. Até onde sabemos, o Grande Clã, em Vícan, espera que alcancemos uma meta de reprodução humana nos próximos anos. Ficarão felizes em saber que o senhor colaborou.

Respiro fundo. A tensão em encarar os olhos vermelhos é tanta que esqueço da dor da cauterização.

Mivorg respira fundo.

– Talvez tenha razão, Gonther. Faça como disse.

Um arrepio percorre meu corpo. Arfo discretamente, aliviado.

– Mortur, traga aquela humana e a coloque entre os enfileirados – dou a ordem e ela a cumpre. – Esquadrão, preparar! – os soldados levantam as armas. – Fogo!

Os gritos dessa vez demoram a ser silenciados. São muitos a serem abatidos. Os raios cortam o ar numa jornada mortal até os humanos. Quando o último dele cai, Mivorg ordena que todos os outros humanos limpem o pátio e o galpão. A mim ele encarrega de enviar a humana para a Fábrica 0.

– – –

Enquanto passamos por detrás do hangar, rumo à pista de pouso, ela me encara.

– Por que me salvou? Podia ter acabado comigo!

Ela continua me encarando. Só percebe que isso foi uma ordem para que fale pouco tempo depois.

– E qual seria a minha vantagem? Nós dois estaríamos mortos. Me ensinaram que bondade é muito mais forte que a guerra. Mas não é violenta igual ela, por isso acaba tendo que se esconder. Por que me salvou?

Fico sem palavras.

– Aposto que teve de ter muita coragem para interromper a execução – a voz dela tem um tom leve, despretensioso. Sincero.

A encaro. É provável que nunca mais nos veremos. Talvez essa seja a única conversa real que terei com alguém durante a vida toda, caso eu nunca mais volte para Gongla. As chances disso são grandes.

– Agradeça sua bondade. Não gosto de ter dívidas com ninguém.

– Não cobro para salvar ninguém, Gonther.

Olho para frente, para a passagem na cerca, que se aproxima. O migdacroniano encarregado da pista nos espera.

A nave está pronta”, ele diz.

Levo a humana para o pequeno transportador pousado no meio da pista. A porta se abre e a escolto para dentro. Olho para meu pulso. Desligo o comunicador.

– Preste atenção, eu não vou repetir – percorro os painéis de controle e indico um lugar. – Puxe aquela alavanca e depois aperte esse botão. Um mapa holográfico aparecerá na sua frente. Toque em algum lugar na faixa equatorial do planeta marcada por vermelho e empurra a alavanca de novo para acionar o piloto automático.

Os olhos dela se abrem num brilho que só costumava ver nas planícies férteis de Gongla: esperança.

– Mas preste atenção: você vai cair em alguma zona de confronto. Procure os humanos. Eles são os soldados da última resistência humana. Talvez você sobreviva.

Os olhos agora ganham tons de medo.

– Boa sorte – me viro para sair.

– Sarah – ela diz, me fazendo olhar para ela mais uma vez.

– Sarah.

Desço da nave e aciono o fechamento da rampa de acesso. O transportador decola. Quando ele alcança uma boa altura do chão, uma torreta de mísseis se ergue ao lado da pista de pouso.

Ela alterou a rota da nave! Disparem! Disparem!”, o migdacroniano berra em seu comunicador, o que me lembra de religar o meu. “Você não amarrou aquela humana?!”

Vai, Sarah!”, repito para mim mesmo.

A nave começa a voar em linha reta. A torreta acerta a mira e dispara. O míssil risca o céu dourado do amanhecer.

Você consegue, Sarah!”

A nave aciona os grandes propulsores.

O míssil a encontra.

Uma bola de fogo contrasta o sol nascente.

Respiro fundo.

Confirmação de abate?”, o migdacroniano pergunta aos controladores.

Negativo. Rastros de dobra, senhor.”

Encaroo céu mais uma vez. Respiro. A dor do meu ferimento me lembra quepreciso de ajuda. Em passos curtos, volto ao pátio.


Gostou desse conto? Então você também vai gostar do meu livro, Os Renegados.

Sou o autor de Os Renegados, distopia pós-apocalíptica, editor do Central Autoria e locutor do Autoria Podcast. Também sou parceiro da saga de fantasia épica A Crônica Esférica. Webdesigner por formação, procuro compartilhar meus conhecimentos em Marketing Digital com outros escritores para que possamos formar juntos nossas carreiras.
0 Comentários
Deixe o seu comentário!