31.10/2018 | Murillo Costa
Contos Autor Murillo Costa

Colônia 7

Colônia 7

Acorde, Liu!”

A voz robótica enche o pequeno e abafado quarto de hospedagem barata. O rapaz, jogado na cama do mesmo jeito que nela caiu, e ainda com seus sapatos nos pés, respira fundo.

Eles estão vindo!”

Bipes são emitidos do notebook, sua tela tingindo o quarto com verde tênue. O rapaz respira fundo mais uma vez e ergue a cabeça afundada no travesseiro.

Jade?! O que houve?”, imediatamente estende a mão para um criado-mudo e alcança os óculos. Em dois segundos está sentado de frente para o notebook, olhando para a esfera verde nela.

– Os Cabeças Vermelhas nos encontraram! Precisamos ir.

– O quê? Como?

–- Entrei nos servidores locais da polícia da Colônia e encontrei ordens de busca em todos os hotéis da região – a esfera verde tem as partículas que a formam agitadas enquanto fala.

O rapaz magro e com uma cara de noites sem dormir coça a testa, frustrado.

– Estamos na Zona Vermelha, a ONU não pode colocar as forças armadas aqui sem causar uma bela violência fora de controle.

– Eles estão dispostos a arriscar.

O jovem olha para a tela.

– Acho que tem razão… você vale uma guerra pra eles.

– Precisamos partir, Liu. Tive que me desconectar antes que me rastreassem. É seguro que eu fique, pelo menos, uma hora sem me conectar.

– Tudo bem – ele se levanta e passa as mãos sobre a camisa numa tentativa inútil de desamassá-la.

Uma risada feminina alta entra pela janela, seguida por palavras incompreensíveis de um homem. Silenciosamente Liu vai até o peitoril, afasta ligeiramente a cortina do vidro e vê uma mulher com uma curta saia e top de couro, iluminados por tubos de LED vermelhos, andando abraçada com um homem de chapéu e sobretudo pretos.

É só isso que há naColônia, Liu!, ele sussurra as palavras que seu pai usava para tentar fazer o curioso adolescente Liu entender o que havia fora dos muros da imponente Cidade de Vidro.

Uma leve chuva embaça a visão. Os prédios antigos e amontoados se misturam às fachadas de neon e luzes dos carros em trânsito. Liu puxa a gola de sua camisa, ajeitando-a, e volta para o notebook.

– Vou ter de fechar você – um leve sorriso cruza sua boca.

– Previa isso – as partículas se agitam e param logo em seguida. – Podemos encontrar segurança a norte daqui, Terra Provincial. Lugar de camponeses.

Liu concorda balançando a cabeça e começa a abaixar a tela, mas, há pouco de fechar o notebook, ouve a voz robótica:

– Liu, não quero ir com eles.

Ele pausa seu movimento.

– Não vou deixar pegarem você, Jade. Eu não te criei para ser uma arma.

Ele pensa em reerguer a tela, mas se convence de que não há tempo.

– Não vou poder colocar fones agora, então… até breve – ele encosta a tampa do notebook, desligando-o.

Antes de deixar o quarto, Liu olha no relógio em seu pulso: 1:03 da manhã. “Vamos lá!”, ele tenta motivar a si mesmo. Veste uma jaqueta grossa e passa para as costas a mochila com as poucas roupas que conseguiu pegar quando os Cabeças Vermelhas invadiram seu laboratório na Cidade de Vidro, há quilômetros dali

O rapaz alto e esguio atravessa o corredor mal iluminado, cheio de portas de madeira antiga, impregnado por um cheiro de coisa velha misturado a umidade e perfume barato. A escada range sob seus pés. Na portaria, Liu passa por um recepcionista debruçado no balcão, dormindo de frente para uma televisão onde passa um filme antigo de super-herói.

O recepcionista nem se mexe quando Liu balança o sininho em cima da porta, ao abri-la. Tentando encontrar seu caminho em meio a todo aquele neon das fachadas, borrados pela chuva constante e fria, ele toma a direita e desce a rua pensando na estação de metrô há alguns quarteirões dali.

Com o capuz na cabeça, o jovem segue debaixo das marquises, correndo para atravessar as ruas e evitar se molhar tanto. Após a segunda esquina, um ponto vermelho sai de alguma porta metros à frente dele. Liu hesita, puxa o capuz e continua. Mais alguns passos e o ponto vermelho toma a forma de uma das mulheres de companhia, vestida com roupas contornadas por neon.

Ela para no meio da calçada, rosto virado para um Liu cada vez mais próximo e mais rápido.

Não quer um lugar melhor do que debaixo de chuva?”, ela pergunta enquanto ele cruza sua frente. Não ouve resposta alguma.

A marquise da danceteria de onde a mulher saiu acaba e a chuva cai direto em Liu – o que continuará por mais alguns metros, até que ele atravesse o cruzamento e chegue no próximo quarteirão. Um barulho de motor faz a caminhada parar. De sua esquerda sobe um carro preto, de vidros escuros e faróis apagados. Seu estômago fica mais gelado que a chuva.

Liu dá meia volta.

A mulher ainda está lá.

Acho que não vou chegar onde preciso com toda essa chuva”, ele diz ao chegar perto dela.

Ela sorri.

Eu tinha certeza que não. Venha, lá dentro está bem melhor!”

Assim que a mulher abre a porta à prova de som, uma onda frenética de música eletrônica atinge Liu. “Você vai entrar comigo”, ela o conduz para uma porta auxiliar atrás dos seguranças. Os dois passam pelo corredor de entrada e saem direto na pista de dança, iluminada por canhões de luz, dominada por um cheiro adocicado de fumaça.

– Qual seu nome? – ela pergunta enquanto o conduz para o bar.

– Liu.

– Liu. É sua primeira vez na Zona Vermelha, Liu? Parece que sim.

– Por que acha isso?

– E agora você se entregou. Mas não se preocupe, isso não faz muita diferença. Dentro de uma boate, a Zona Vermelha é como qualquer outro lugar.

– Eu acho que não – Liu olha em volta, para a pista onde as pessoas dançam quase que dominadas por uma mente coletiva de movimentos e envolvimento. – Aqui vocês curtem muito roupas de couro.

A mulher sorri e acena para o barman.

– Duas doses daquele que você já sabe, Rick.

Não”, Liu interrompe o pedido.

– Você já pagou a entrada, deixa que eu pago a bebida – ele completa. – Traga a dose que você já sabe para ela e pra mim uma água tônica.

O barman deixa o balcão com os pedidos anotados.

– Você não me disse seu nome.

– Harper.

– Harper. Você também não é natural da Zona Vermelha, Harper. Nem da Colônia 7, eu diria.

– Vivo aqui há alguns anos, vim para trabalhar. E você, o que procura na Zona Vermelha?

Essa é uma pergunta que Liu não parou para inventar alguma mentira como resposta. Para a sorte dele, o barman chega com as bebidas.

– Acho que você é de algum canto dos Países Nórdicos – ele atropela a pergunta que ela fez.

Ela o questiona com os olhos enquanto dá um gole em sua bebida.

– “Harper”, bebendo uma batida de hidromel com suco de maçã… não tem os olhos puxados que a maioria daqui tem. Na verdade, são grandes e azuis.

– Você tem olhos puxados, mas não é daqui. Está com uma mochila não muito pesada, parece que saiu com pressa de seja lá onde esteva. E quer ir embora também – ela ergue a face. – De quem está fugindo, Liu?

Ele dá um gole na água tônica e sorri.

– Não se preocupe, aquele carro preto que te fez vir até mim eram só os homens da ganguel que controla essa região. Vigiam as ruas da polícia da Colônia, não precisa ter medo. A não ser que você seja da polícia.

– Não – ele nega balançando a cabeça – não sou da polícia.

– Que bom, porque o último deles que tentou se infiltrar na Zona Vermelha teve os pedaços do corpo espalhado em catorze ruas diferentes.

– História de se esperar desse lugar.

Harper toma o resto de sua bebida em só gole e segura o pulso de Liu.

– Mas tem coisa bem melhor para fazermos do que provocar um ao outro. Não quer dançar?

– Acho melhor não, com uma mochila nas costas não dá muito certo.

– Acho que você tem razão. Vem comigo, então.

Liu deixa algumas notas no balcão e acompanha Harper em direção a uma escada que leva a salas individuais no andar de cima, de onde ainda é possível observar a pista de dança. Ela o indica um sofá roxo, de frente para uma pequena mesa de centro. Harper envolve o braço de Liu com os seus e se senta junto a ele.

– Acho que só preciso esperar a chuva passar – ele diz.

– Podemos esperar do jeito que você quiser.

No mesmo instante, as luzes da boate acendem e a música para. A dança e a conversa alta acabam um segundo depois. Harper solta e Liu e fica de pé, tentando ver o que acontece lá em baixo.

Atenção! Alerta de drones de batedura!”, repete uma voz robótica em todo sistema sonoro do lugar. “Para sua segurança, permaneça dentro desse prédio.”

– Drones?

– Isso é perigoso – Harper estende a mão para Liu. – Perigoso demais para alguém que não conhece a Zona Vermelha. Vem comigo!

Liu não pensa duas vezes e segura na mão de Harper. Ela o leva até uma passagem de serviço, nos fundos das salas individuais. Após uma porta pesada, os dois caminham por um corredor cheio de camarins. “Harper, sabe que não pode trazer clientes aqui!”, grita uma das mulheres enquanto ergue uma toalha sobre seu corpo. “Alerta de drone, Yuko! Alerta de drone!”, a mulher responde.

Harper vira para a esquerda e entra em um camarim. “Me espera aqui”, ela o deixa de pé, no meio da sala cheia de araras com roupas e fantasias e entra atrás de um trocador de roupas.

– Para onde vamos?

– Na última vez que drones da ONU sobrevoaram a Zona Vermelha, deu muito ruim! Uma pequena chacina em nossas ruas e a promessa dos cartéis de atacarem à nobreza do Centro da Colônia. Especialmente dos Lagartos, a quadrilha que controla essa região. Mas essa promessa nunca foi cumprida.

– Até agora.

– Sim, até agora – Harper sai de detrás do provador vestindo calça, blusa e sobretudo. Dá para ver o brilho da roupa de neon refletindo no chão, onde está jogada. – Até onde entendo disso aqui, esse lugar pode virar uma zona de guerra em poucos minutos. Vem!

– Espera! – ele a faz parar enquanto caminhava para a saída. – Por que está me ajudando?

– Por que eu ainda quero acreditar que viver aqui não matou o resto da minha humanidade – Harper acena com a cabeça, indicando a porta e saída.

No final do corredor dos camarins, uma porta corta-fogo os espera; depois dela, uma escadaria íngreme iluminada por fracas lâmpadas avermelhadas. “Se estamos indo para um lugar seguro, porque não tem mais pessoas vindo para cá?”, Liu pergunta, já sem fôlego. “Por que elas confiam nos Lagartosmais do que eu.”

Harper puxa o ferrolho enferrujado da porta pesada no final da escada e a abre, fazendo-a ranger. O gradiente das luzes de neon da rua é visto por Liu, contrastando com escuro e já seco céu noturno. Assim que saem da escada, entende que estão na cobertura do prédio.

O ruído de dezenas de motores chama a atenção do rapaz para sua direita, ao alto, onde vê o enxame de drones voando em direção a deles.

– Tem certeza que aqui é seguro?

– Tenho. Os drones miram nas ruas, nas pessoas correndo por elas. Eles sempre voam abaixo desses telhados altos. Vem!

A mulher o puxa para detrás de uma grossa tubulação de ventilação, onde uma hélice gira vagarosamente. Eles só não podem ver a gente enquanto ainda estão voando alto.

As máquinas avançam mais dois quarteirões e riscos vermelhos saem do chão em direção a elas – tiros dos homens do cartel da região. Em instantes, uma parte dos drones desce em direção àquelas ruas mais distantes de Liu e Harper, mas a grande parte adentra mais na Zona Vermelha.

– Tem certeza que eles vão descer? – Liu pergunta quando os drones já estão tão próximos que ele pode ver as armas acopladas às máquinas.

– Tenho. Eles sempre descem – Harper encara a nuvem ruidosa.

Logo acontece o primeiro disparo e o grito de uma mulher jovem. Mais tiros vindos do céu e o som de vidros estourando se mistura a gritos apavorados. “Eles entraram na boate pelas janelas”, Harper diz num sussurro tão baixo que Liu não tem certeza se ela conversava com ele.

– Todos lá em baixo caíram na armadilha.

Assim que ela fecha a boca, as portas da boate se abrem e a multidão começa a sair. Os drones no céu descem em direção a eles, disparando à vontade.

– Eles desceram – Liu nunca tinha ouvido sua voz num tom tão amedrontado.

– É só ficar quieto que sobrevivemos.

– O que estão procurando?

– Não faço ideia. A ONU não faz esse tipo de intervenção aqui se não for algo muito valioso. Há um ano, três gangues se juntaram para tomar o portão norte do Centro. Quando chegaram lá, tomaram um banho de sangue. Dois dias após o ataque, os drones vieram e varreram cada rua. Ninguém que não conseguiu fora das ruas sobreviveu.

Liu sente um arrepio correr por suas costas e eriçar os pelos de seu pescoço.

Um sinal estático ecoa dos alto-falantes de alguns drones e uma voz fala:

– Atenção! Essa é uma patrulha de busca. Há um fugitivo perigoso na Zona Vermelha. Perigoso demais até para os seus cartéis. Não queremos ferir ainda mais vocês, então esperamos que cooperem com os Cabeças Vermelhas. Coloquem na rua qualquer pessoa que não conheça, que suspeitem não ser da Zona Vermelha. Quanto mais cedo encontrarmos o fugitivo, mais rápido iremos embora e menos de vocês morrerão.

Harper levanta imediatamente os olhos para Liu.

– Dia ruim para estar aqui – Liu tenta esboçar um sorriso.

– O sujeito é jovem – o homem continua falando pelos alto-falantes – alto e magro. Ele tem as características orientais da maioria de vocês, mas não se enganem, é fugitivo da Cidade de Vidro.

Harper se afasta instintivamente de Liu.

– Péssimo dia para estar aqui! – Liu passa a mão pelos cabelos.

– Você tem três segundos para me convencer de não jogá-lo parapeito abaixo!

Eu… é… não posso…”, Liu gagueja enquanto Harper começa uma atormentadora contagem regressiva. Antes que ela termine, um ruído no horizonte chama a atenção dos dois: na borda da Zona Vermelha, de onde é possível ver o topo dos prédios mais altos do Centro da Colônia, uma nuvem três vezes maior de drones vem na direção deles.

– Eu duvido que aqueles vão ficar no nível das ruas antes de nos encontrarem! – Liu diz. – Harper, eu não sou perigoso! Eu estou tentando salvar pessoas. Salvar muitas pessoas!

– Pessoas estão morrendo lá em baixo por sua culpa!

– Elas não vão mais!

Liu arranca a mochila das costas, fazendo Harper dar mais um pulo para trás.

– Está tudo bem. Vou salvar a gente… provavelmente.

Ele tira o notebook e o abre. Logo um brilho esverdeado ilumina a face de Liu e ele vira a tela para a mulher. “Harper, conheça Jade, a consciência artificial que ajudei a desenvolver para a ONU. O verdadeiro motivo de estarem atrás de mim.”

– Liu? – a esfera vibra quando a voz é emitida. – Ainda estamos na Zona Vermelha.

– A ONU chegou antes que eu desse conta de tirar você daqui – ele ergue o notebook, mirando sua câmera para o céu à frente deles. – Enviaram drones.

Harper observa o jovem conversando com o próprio computador, estática.

– Jade, você é nossa única chance. Temos menos de um minuto até aquela nuvem de drones chegar aqui e nos encontrar. Essas máquinas têm uma rede particular para que funcionem com precisão e harmonia. Você é capaz de se infiltrar nessa rede e desativá-los. Preciso que faça isso o quanto antes.

A esfera permanece parada. De repente, vibra com a resposta:

– A ONU saberá que estamos aqui. Não posso fazer isso.

– Jade, eles saberão de qualquer jeito: ou por você se conectar ou pelos drones nos encontrarem. Vão me matar e levar você.

Jade não se manifesta.

Harper continua olhando enquanto o ruído dos drones e gritaria nas ruas triplicam em volume.

– Estou me conectando, Liu. A rede existe. Estou dentro.

Liu fica em pé e sai de detrás da tubulação de ar, encarando de frente os drones que se aproximam velozmente. Luzes vermelhas se ligam na frente das máquinas e elas apontam suas armas para ele.

Liu respira fundo.

De repente, o ruído dos motores para como se alguém os tivesse puxado da tomada. Começa uma nova chuva: os pesados drones despencam rumo ao chão. Em menos de um minuto, todos já estão despedaçados nas ruas, calçadas e telhados.

– Muito bem, Jade! Agora só temos de correr! – Liu respira fundo.

– Liu, cuidado! – a esfera vibra.

Antes que ele se vire, ouve o click do engatilhar da arma.

Vire-se devagar e me dê o notebook!”

– Harper?!

A mulher está com uma pistola apontada para a cabeça do rapaz.

– Me dê o notebook!

– Você não sabe o que está fazen…

O disparo da arma não o deixa terminar de dizer.

– A próxima é na sua cabeça – Harper desvia a arma do céu e a volta para Liu. – Me dá o computador!

O rapaz não tem escolha. Ele fecha o notebook e o entrega para a mulher. “Você não sabe o que ela é e nem como usá-la. Ela só vai te transformar na pessoa mais procurada pela ONU!”

– Ela vai me fazer livre. Anda! Para a escada de incêndio.

Com as mãos na cabeça e a quatro degraus de distância de Harper, Liu desce a escada fixada na parede externa do prédio. Os dois se dão num beco escuro. As ruas estão tomadas por curiosos, feridos e mortos. Carros pretos acabaram de chegar e homens armados desceram deles.

Hei!”, Harper grita a um dos homens. “Quero falar com Fox, agora! Eu sei quem fez isso com os drones.” O homem mal-encarado olha para a mulher e o rapaz rendido por ela. “Ele é o procurado pela ONU.”

O homem alto e forte, com uma metralhadora pendurada nos ombros, sorri. “O Fox vai adorar arrancar os membros dele!”

Eles são conduzidos para um dos carros. O homem chama um outro e o grupo parte para ruas estranhas, escuras, de casas acabadas. Durante o trajeto, silêncio absoluto. O carro para em frente a um depósito aparentemente abandonado. Os homens arrancam Liu do carro, dão-lhe um soco no estômago que o faz ficar de joelhos e o algemam.

– Você não sabe o que está fazendo! – ele tenta olhar nos olhos de Harper, mas ela não olha para ele.

– Não é nada pessoal – ela responde. – Mas você me deu uma chance de sair daqui. Me desculpe.

– Você disse que ainda tinha um pouco de humanidade.

– Não existe humanidade nesse lugar.

Calado!”, grunhe um dos homens, golpeando a face de Liu com um soco.

A porta do armazém faz um estrondo quando é aberta. “Fox! Seu lucro da noite veio rápido hoje!”, anuncia o capanga. Um homem careca, com um cavanhaque grande, está de pé no meio do armazém. Sombras de armas penduradas em colete são bem evidentes.

– E que fique claro que foi eu quem o trouxe! – Harper avança na frente dos homens. – Esse é Liu, fugitivo da Cidade de Vidro, a quem os drones caçavam. Ele roubou tecnologia da ONU e veio parar aqui. Eu o convenci a ter minha companhia nessa noite, quando tudo aconteceu.

Fox dá dois passos em direção ao rapaz escoltado pelos homens.

– Então você é o responsável pelas mortes de hoje? – ele ergue a cabeça para um de seus capangas. – Por que o trouxeram a mim em vez de matá-lo?

– Por que ele é mais valioso do que imagina – Harper chama a atenção de Fox, fazendo-o virar para ela. – Ele desativou todos os drones usando esse notebook. Há alguma forma de inteligência artificial aqui dentro capaz de se conectar com as máquinas da ONU e desligá-las.

O chamado Fox ergue a sobrancelha esquerda.

– É melhor começar a falar, rapaz, ou vai apanhar muito – Fox o intimida.

Com um olhar incrédulo para Harper, ele começa:

– É uma consciência artificial, capaz de aprender sozinha, tomar decisões conscientes e ter um senso moral baseado em protocolas pré-determinados. É o mais próximo de vida artificial que chegamos a desenvolver.

– E porque está nas suas mãos? – Fox fica entre ele e Harper, forçando Liu a olhar para ele.

– Eu fazia parte da equipe de desenvolvimento. A maior parte do projeto leva minha assinatura. E eu não queria ser o responsável pela morte de pessoas quando a ONU integrasse essa consciência ao Núcleo, um servidor cheio de protocolos que controlarão a liberdade de escolha da Jade, fazendo dela uma escrava para o que o ONU queira. Eu a roubei e fugi. Eu não queria ser o responsável pela morte de vocês.

– Nossas mortes? Parece que você já fez isso hoje.

– Hoje foi uma pequena amostra do que a ONU será capaz de fazer se colocar as mãos nesse notebook. A Jade… essa consciência… foi feita para assimilar dados não-estruturados. Big Data. Cada informação que existe solta na internet, em GPSs, redes sociais, sistemas bancários, bancos de imagens de satélites… tudo, exatamente tudo, ela será capaz de examinar e traduzir em informação rapidamente interpretável se for integrada ao Núcleo.

– Traduzindo para nossa língua? – Fox cruza os braços.

– Jade seria capaz de fornecer as melhores estratégias de controle social. Uma sociedade dominada pela ilusão de que podem fazer suas próprias escolhas quando, na verdade, suas opções foram geradas a partir das informações do Big Data. A sociedade escolhe o que a ONU quer que ela escolha. Controle absoluto. Fim da liberdade.

– Isso fora dos limites da Zona Vermelha, onde a ONU não tem poder. Por que acha que está salvando nossas vidas, então?

– Vocês são a maior ameaça ao sistema deles. Insurgentes. Jade seria capaz traçar as melhores estratégias para detonar vocês. Cada base secreta seria descoberta a partir de inúmeras comparações de fotos via satélites. Vocês seriam apagados até da história em menos de uma semana.

– Você ajudou a criar isso?

Liu balança a cabeça num sinal positivo. “E agora estou fazendo o que posso para impedir a ONU.”

– Não, rapaz, não está. O melhor que você pode fazer é morrer. Se a ONU te pegar, vai obrigar você a construir outra, porque essa nós vamos destruir logo depois de dar um fim em você.

Não, Fox. Você não entendeu.”, Harper, mais uma vez, faz o homem virar-se para ela. “O quê?”, ele pergunta.

– Essa coisa conseguiu destruir um exército de drones em menos de um minuto. É a melhor arma da Zona Vermelha contra o Centro da Colônia, e até contra a ONU. Não pode simplesmente destruir. E ele é o único que consegue controlar essa tecnologia – Harper aponta para Liu.

Fox coça a barbicha, hora encarando Liu, hora encarando o notebook. “Hoje é seu dia de sorte, garoto. Me dá o computador, Harper.”

Click

Harper está com o notebook estendido na frente dela, com sua pistola apontada para ele.

– Esse é o preço da minha liberdade. Me manda para o Centro da Colônia e esqueça que eu existo, ou eu disparo. Quer cinco segundos para pensar? Eu te dou três!

– Harper…

UM!”

– Levem ela – Fox não pensa duas vezes. – Ela cumpriu seu trabalho para os Lagartos.

Hesitante, Harper entrega o notebook e é levado por um dos homens para fora do armazém.

Vamos ao trabalho, rapaz?”, Fox intima Liu.

Não consigo fazer nada algemado.”

Às ordens do chefe, o capanga solta Liu. Os três vão para uma parte fechada por divisórias de madeira dentro do armazém. Há uma mesa de madeira esfolada e algumas cadeiras plásticas velhas. Liu e Fox se sentam, o capanga fica de vigia. Fox abre o notebook e o vira para Liu. “Me mostre o que ela pode fazer.” Liu respira fundo e ergue a tela. A esfera se compõe.

– Jade, estamos numa situação complicada. Esse é Fox, algum chefão da rede de cartéis de crime… – um soco pesado em seu rosto o faz calar imediatamente.

– Você acha que sou otário?!

O rádio do capanga chia e uma voz quase indecifrável fala alguma coisa. “Fox, Cabeças Vermelhas estão se preparando para entrar na Zona Vermelha. Esquadrões deles. Mais do que somos capazes de combater, pelo menos sozinhos.”

– Contatem os Tigres e os Ceifadores, a fronteira também é dever deles. Se for preciso, arme cada cidadão das linhas de confronto.

Certo!”, o homem sai.

Nesse momento, alguns disparos são feitos lá fora. Liu não consegue evitar que seus olhos quase escapem de suas órbitas.

– Não se preocupe, dondoca da Cidade de Vidro. Esses tiros são nossos. Ninguém desafia os Lagartos daquele jeito. Que sirva de lição para você também. Agora, como essa coisa vai nos fazer vencer os Cabeças Vermelhas?

– Cabeças Vermelhas são a elite do exército da ONU! Além disso, são humanos. A Jade não pode se conectar em mentes humanas, é impossível.

Fox se levanta e agarra Liu pelo pescoço, estrangulando-o. “Você tem cinco minutos pra pensar em alguma coisa!” Ele o carrega para os fundos do armazém, onde há tubulações de esgoto expostas. Fox algema Liu a um dos canos. “Quando eu voltar, espero que você nos dê alguma forma de vencer, ou não me importará mais o que você ou aquela coisa sejam.”

Fox dá as costas e desaparece na escuridão do armazém.

Liu deslisa as mãos pela calça, contorcendo-se para conseguir alcançar o fundo do bolso direito. “Bingo!” Ele abaixa a cabeça até as mãos e coloca no ouvido o pequeno fone com o qual se comunicava com Jade por horas enquanto os testes eram feitos nos laboratórios da Cidade de Vidro.

Jade, pode me ouvir?”

Liu, você ainda está vivo. O que devo fazer? Não tenho procedimentos para esse tipo de situação.”

Não se preocupe com isso. Jade, você consegue se conectar com os drones que derrubou?”

Não. Todos foram inutilizados.”

Liu tenta pensar, mas logo se lembra que está conversando com uma mente muito mais limpa e livre do medo da morte iminente.

Jade, a ONU vai colocar os Cabeças Vermelhas dentro da Zona Vermelha. Três quadrilhas vão lutar contra eles na fronteira entre a zona e o Centro da Colônia. Em menos de cinco minutos Fox volta, me mata e te destrói se não tivermos uma forma de ajudá-los contra a invasão. Soluções?”

Um breve silêncio.

Estou longe demais para me conectar na rede dos Cabeças Vermelhas e de qualquer máquina que eles trouxerem. Não posso fazer nada daqui, Liu.”

O rapaz bate a cabeça contra o cano.

Exceto…”, ele sorri. “Exceto se houver uma forma de conexão.”

Internet.”

Internet.”

O homem ameaçador toma forma entre a escuridão do lugar e logo está frente a frente com Liu.

– E então, meu jovem, o que vamos fazer?

– Jade não pode se conectar à rede da ONU aqui, está longe demais. Precisamos de uma conexão. Precisamos de internet.

Fox sopesa as palavras. “Liguem os roteadores!”, ele diz ao aparente nada, mas passos se movimentam para algum lugar após a ordem. O homem solta Liu e o leva de volta para a sala onde Jade está.

– Jade, eles ligaram a internet daqui. Conecte-se nela e entre nos servidores da ONU da Colônia 7. Busque pelos arquivos da intervenção que farão…

– Já fazem. As tropas deles já estão na fronteira – Fox interrompe.

– Que seja. Jade, tente encontrar as armas inteligentes que eles usarão.

– Cinco mil homens foram destacados para a invasão – Fox ergue as sobrancelhas diante da informação dada por Jade. — Sete quadricópteros carregados com bombas e mísseis de curto alcance. Nenhuma arma inteligente foi solicitada para a invasão.

O rádio de Fox chia.

– O confronto acabou de começar. A primeira rua da Zona Vermelha já está em escombros.

– Jade, nós somos os responsáveis por essas mortes. Precisamos impedir que mais pessoas morram. Que mais qualquer possa morra, seja Cabeça Vermelha ou gangster. O que podemos fazer?

A esfera fica imóvel, silenciosa.

– Por que ela não faz nada?! – Fox ergue sua arma, engatilhando-a.

– Ela está em um notebook, dá um tempo pra ela pensar.

– Não temos tempo! Só os quadricópteros podem destruir toda a Zona Vermelha!

O rádio chia mais uma vez.

Fox, estamos virando churrasco aqui! Os Tigres estão recuando e os Ceifadores que vieram já foram explodidos pelos Cabeças Vermelhas! Não vamos aguentar mais tempo aqui.”

Armem qualquer um que estiver perto e o obrigue a pontar contra os Cabeças Vermelhas!”, Fox dá a ordem.

– Liu, só há uma opção – Jade responde.

– Acho que também já sei qual é – o jovem responde.

– Nos entregar – a esfera vibra.

Não vão sair daqui!”, Fox esbraveja.

– A ONU não vai parar enquanto não nos encontrar e eles sabem que estamos aqui – Liu dá um soco na mesa.

– Eu abro a porta, deixo vocês saírem e daí vocês somem. A ONU acaba com o resto de nós pensando que vocês ainda estão aqui.

– Estou tentando salvar as pessoas inocentes que acabou de mandar para morte! Estou tentando salvar seus homens também. Até os malditos Cabeças Vermelhas!

Fox!”, o rádio dá sinal. “Fox, alguma coisa aconteceu! Dois quadricópteros se viraram contra os Cabeças Vermelhas, dois contra nós e três estão a caminho do interior da Zona. Os tiros pararam. Dos dois lados.”

O homem olha para o notebook.

Liu sorri.

– Ela está trazendo a ONU para cá! Desliguem os roteadores! Agora!

– Não! Ela acabou de parar a carnificina!

– Liu, fui desconectada.

– Você vai matar todos os seus soldados, idiota! – num ímpeto desarrazoado, Liu avança contra Fox, que o domina antes mesmo de receber qualquer golpe.

Fox joga Liu no chão e desce pesados chutes na barriga do jovem. Por fim, ele ergue sua cabeça do chão e a soca algumas vezes.

Liu tenta se levantar, tateando o chão em busca de ar.

O barulho forte de hélices ecoa do lado de fora. Liu cospe sangue e depois exibe um sorriso irônico para Fox. “Tomara que nossas celas sejam próximas, quero te ouvir gritar”, ele diz.

Antes que Fox possa se mover, uma forte explosão põe a baixo parte de uma das paredes do armazém. Como uma enchente, os soldados de capacetes vermelhos da ONU entram no lugar.

As paredes de madeira da salinha improvisada vão para o chão; Fox e Liu são imobilizados e algemados num piscar de olhos.

Senhora, encontramos o artefato”, diz um dos soldados, olhando para o notebook.

Ótimo. Missão cumprida. Todas as tropas, recuar. Tragam o programador vivo.”

Liu é alavancado do chão por dois Cabeças Vermelhas. Em pouco tempo, já está dentro de um dos quadricópteros, em voo.

Jade, pode me ouvir?”, ele cochicha enquanto esconde a boca detrás dos braços.

Liu, não quero o Núcleo.”

Você não vai para o Núcleo, confie em mim. Assim que conseguir, escape para a internet.”

Se eu te deixar, eles vão te matar. Não posso deixar humanos sofrerem.”

Seus protocolos de senso moral estão funcionando. Isso é bom.”, ele sorri. “Mas é a minha escolha. Você não pode tirar isso de mim. Fuja para a internet assim que conseguir.”

Não posso causar seu sofrimento. Não posso ferir sua escolha. Não sei o que fazer, Liu.”

Você não quer ser livre? Então me deixa ser livre para decidir. Muito mais pessoas vão sofrer se você for para o Núcleo. Não pode deixar isso acontecer.”

Hei! O que está fazendo?”, um soldado ergue a cabeça de Liu, encontra o fone e o arranca de seu ouvido. “Não vai querer bancar o espertinho de novo, vai?” Um soco apaga Liu.

– – –

Liu respira fundo, assustado. Uma luz vinda de cima marca a mesa onde estava com a cabeça deitada. Entende que está algemado e há uma mulher na frente dele.

– Finalmente. Jackson tem a fama de ter um soco pesado. Você dormiu por horas. Ou talvez você seja muito fraco.

– Ou talvez eu estivesse há noites sem dormir e, depois de apanhar tanto, consegui tirar o atraso. Mandaram você me interrogar, Emma?

– Era eu ou algum daqueles brutamontes que te nocautearam – ela tira os óculos e coça a testa. – Vamos direto ao assunto, Liu: onde está a consciência artificial?

– Não esqueceram ela dentro do quadricóptero e algum daqueles soldados pensou que era algum videogame?

– É óbvio que você não vai colaborar. Talvez prefira os brutamontes.

– A resposta para sua pergunta é óbvia, Emma. Claro que se você a pudesse ver, teria sido você à frente do projeto Jade, não eu. Ela se sentiu ameaçada e fugiu para a internet. Nunca vão conseguir pegá-la. Estão lidando com alguém muito mais inteligente e eficiente que vocês.

Levem ele.”

Enquanto Liu é conduzido pelos corredores do presídio, a caminho de sua cela, cada câmera de segurança se volta para ele. Ele percebe e olha diretamente para elas.

Um leve sorriso corta sua face.

Sou o autor de Os Renegados, distopia pós-apocalíptica, editor do Central Autoria e locutor do Autoria Podcast. Também sou parceiro da saga de fantasia épica A Crônica Esférica. Webdesigner por formação, procuro compartilhar meus conhecimentos em Marketing Digital com outros escritores para que possamos formar juntos nossas carreiras.
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