22.11/2018 | Murillo Costa
Caveira Vermelho Conto Murillo Costa

Caveira Vermelho

Caveira Vermelho

Depois da água calma vem a tempestade.”

O Caveira Vermelho balança sobre o mar agitado. Segundo o chamado, não veremos chuva alguma pelas próximas milhas de água aberta. O vento enverga as velas do galeão na direção da minha intuição. Sinto o peso da vida dos cento e cinquenta marujos arrastados comigo para o que será o maior triunfo do Caribe. Desde que o sonho tenha sido o chamado e não a loucura de todos esses anos de álcool.

Um som oco me faz virar para o convés. Um rapaz franzino, com uma calça esfarrapada e camisa aberta, acaba de colocar um balde no chão. Embarcou no Caveira Vermelho há pouco tempo, em Tortuga. Escolher um navio caçado por todos os corsários do Caribe e, especialmente, pela marinha francesa– coragem ou insanidade.

Capitão!”,ele diz quando me aproximo. “Rapaz, a última vez que vi alguém tão interessado no Caveira Vermelho foi quando ainda éramos corsários da França”, ergo o tapa-olho para encará-lo com os dois olhos. “Depois do seu chamado para encontrar o tesouro perdido, o Caveira Vermelho virou o principal assunto em Tortuga”, ele afunda o esfregão no balde com água. “Tanto para amigos quanto para inimigos”, digo.“Não tenho interesse no tesouro, capitão Lasga”, ele começa a esfregar o chão. “Não é pelo seu chamado que vim. Sei que quer livrar nossa terra daqueles carniceiros da Europa.”

Sorrio.

– Os vermes que ainda trabalham para aqueles afrescalhados estão atrás de nós. Os outros piratas roubam navios nas Índias Ocidentais todos os dias mas ficam com medo de mim quando digo em libertação. Não percebem o poder que temos.São burros! Tão burros quanto Hornigold, que, com toda sua influência em Nassau, não faz nada. Aliás, aquele homem porco fede a traidor!

– Isso eu não sei – ele sorri.– Mas acredito no senhor. Quando encontrar o Jolly Roger Naufragado, Port Royal, Tortuga e Nassau serão seus. Corsários e piratas, todos na sua mão e nossa casa será só nossa outra vez.Tudo isso encobertos pela guerra do trono espanhol.

Arqueio as sobrancelhas para o jovem.

– Você está a pouco mais de uma semana conosco, como sabe de tudo isso?

– Não é uma estratégia tão difícil de se pensar – ele olha para mim com um sorriso de canto.

– Ah, é sim! Eu poderia achar que você é um espião, mas prefiro achar que é um rapaz esperto –olho para o esfregão. – Que talvez possa deixar de ser esfregador de bordo e virar rapaz de pólvora.

Ele sorri. “Isso se não tiver medo dos mitos e balelas que dizem proteger o Jolly Roger Naufragado”, volto o tapa-olho para a face. “Não tenho medo, capitão!”

Navio à vista!”, grita o vigia do cesto da gávea. “Navio à vista! Corsário! Caravela portuguesa!”, ele continua. “Talvez você mude de cargo agora, garoto. Aliás, qual seu nome?”, pergunto.“Lin, capitão.” Digo para ele se preparar e saio em buscado timão.

Eu assumo! Cuide das armas e pegue nossa Carta de Corso”,digo a Garven, o Imediato.“Capitão, aquela falsificação é uma piada. O francês de Bertsu é ridículo. Até o pior Tribunal Almirantado nos condenaria!”, ele cede o timão. “Então cuide muito bem das armas!”, respondo.

Assim que toco no timão, um raio corta o céu e só agora vejo a grande tempestade que vem em nossa direção. A chuva se contrasta com o sol se pondo. O vento sopra as velas para o lado contrário, nos mandando a baixa velocidade na direção da caravela.Os mestres agarram os cordames. “Direcionem para a tempestade! Não vão nos seguir lá! Levantem a bandeira!”, minha ordem é replicada pelo convés até ser ouvida pelo vigia da gávea. Em pouco tempo, nossa bandeira vermelha com a caveira e uma espada cruzada por uma costela é hasteada e dança segundo dita o vento.

Um eco explode no mar. Olho para trás, para nossos inimigos, a tempo dever o tiro de canhão acertara água. “Tiro de aviso”, penso.“Lin! Vá ajudar Garven nas armas!”,meu grito atinge o rapaz como o tiro de uma largada de corrida. Ele dispara para o interior do navio. No horizonte, um gigantesco nevoeiro arfa em nossa direção como se tivesse dezenas de longos braços que tentam nos envolver.

Lasga! Nós vamos morrer na tempestade!”, um dos mestres de navio grita. “Que morramos pelas mãos do oceano, então! Não pelo tiro de um tribunal corrupto!” Há somente um arco de sol quando o nevoeiro nos alcança, junto com a chuva e ondas fortes.

Onda gigante!”, o vigia berra. À nossa frente, uma colossal parede de água vem feroz.Respiro fundo. Ela toca aproa do Caveira Vermelho e o inexplicável acontece: a onda engole o navio, mas é como se ela não estivesse aqui. Respiramos dentro da onda. Vemos a água em torno de nós, mas não a sentimos. Como em um sonho. O sonho. O tesouro dos escolhidos dignos de receberem o chamado. Os mitos e balelas que protegem o Jolly Roger Naufragado. O chamado foi real. A onda passa por nós, mas não nos atinge. Ao chegar na caravela portuguesa, estraçalha-a.

– – – –

Lin abre os olhos, ainda escorado à parede do corredor próximo às salas de canhões. Do seu lado há um homem idoso encharcado e trêmulo, sentado no chão. “O senhor está bem?!”, o jovem se agacha. “A onda feriu o senhor?”

Lin?!”, seus olhos assumem o brilho de uma pessoa elevada a uma grande revelação. “Fuja, suma daqui! Não há libertação!” O jovem estende a mão e toca o ombro do homem. “As criaturas chegaram… não se mova perto delas!”, ele diz e entra em convulsão; uma garrafa rola de uma dobra de suas roupas.

– – – –

O silêncio é denso no convés. Todos me olham, incrédulos. O nevoeiro nos engoliu – uma estranha sensação de perigo nos cercando, de morte nos prendendo em um cerco dentro do nosso próprio navio. Um frio familiar.

Um ruído como que de galhos secos se quebrando vem de baixo, da água. A superfície do oceano se congela à medida que é tocada pelo nevoeiro. “Ali!”, grita um homem, desembainhando sua espada e erguendo-a para o céu. Instintivamente ponho a mão na empunhadura da espada atada a minha cintura. Olho na direção e não há nada lá. O barulho seco do vigia da gávea despencando no chão do convés faz todos se sobressaltarem. Um dos mestres do navio vai até o vigia. Enquanto eu desço até eles, a face tomada de pânico do mestre me confirma toda a sensação de perigo: o vigia virou um ser diminuto, cada gota de sangue e água de seu corpo parece ter sido drenada, seus olhos viraram duas grandes bolas opacas.

Olho no céu!”, grita alguém. Centenas de pontos vermelhos brotam no meio do nevoeiro – olhos? Ao lado do mestre um imenso corpo negro se forma, grandes braços e mãos com dedos longos. Na cabeça, três fissuras avermelhadas. Levanto a espada. O mestre se assusta e dá um passo para trás – a mão da criatura o envolve e ele grita enquanto seus ossos se quebram e seu corpo se contorce, secando. Num piscar de olhos, o convés está cheio de criaturas fazendo o mesmo com o resto dos homens. Uma voz interior me manda ficar quieto. Elas me ignoram até que não sobra mais ninguém vivo ao meu lado. As criaturas emitem um rosnado e muitas já desceram para o interior do navio. O frio se torna severo e não consigo mais segurar o queixo – ao primeiro movimento dos dentes se batendo, o pequeno exército de seres inexplicáveis me encontra e salta para mim. Tenho a decisão mais rápida que já tomei: sair correndo e me jogar do Caveira Vermelho.

Minhas costas rompem o gelo que se formou na água e a dor é lancinante. O grito é involuntário e minha boca se enche de água. Meu corpo desce como se pesasse um barril de ouro. Em vez de sentir a pressão aumentar, ela diminui e, por fim, emerjo em águas calmas, sobre um banco de areia, debaixo de um sol pendido para oeste. Tossindo, me coloco de pé. Olho para os lados e encontro uma ilhota. Vou até ela. No meio de pedras, vejo a ponta de um mastro e, preso a ele, o Jolly Roger, a bandeira pirata. Tenho vontade de gritar todas as obscenidades, mas não me restam forças. A bandeira vermelha, com uma caveira e espada cruzada por uma costela. Caio de joelhos à beira da pequena praia. Não é qualquer navio. É o Caveira Vermelho. Naufragado. Não existe tesouro. Não existe libertação.

Me arrasto até a praia seca. Do outro lado das pedras há uma ossada inteira. Esse deu a sorte de não ser atacado. Deve ter ficado quieto assim como eu fiquei. Uma onda deixa uma garrafa do meu lado. Abro-a e retiro um papel enrolado, uma ordem de caça aos piratas. “Que lugar é esse?”, passo a garrafa para um bolso interno e, segundos depois, um raio corta o céu à minha frente. “Depois da água calma vem a tempestade.” A tempestade me trouxe aqui, a tempestade me levará de volta.

Respiro fundo. Me levanto e corro por cima do banco de areia. Mergulho e nado para a tempestade, para o nevoeiro. Ao alcançar a divisão entre as águas paradas e a tempestade, já sinto o frio das criaturas, vejo os olhos vermelhos e afundo na água. A força do meu corpo é sugada de mim e o peso de décadas me atinge como um soco pesado.

Abro os olhos.

Estou no interior do Caveira Vermelho.

Um rapaz está encostado na parede do corredor, de olhos fechados.

Sou o autor de Os Renegados, distopia pós-apocalíptica, editor do Central Autoria e host do Autoria Podcast. Também sou parceiro da saga de fantasia épica A Crônica Esférica. Estudante contínuo de empreendedorismo e marketing digital, procuro compartilhar conhecimento através do meu trabalho.
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