13.09/2018 | Murillo Costa
Como escrever um livro de ficação

Como escrever um livro de ficção: entenda a estrutura do livro

Escrever um livro de ficção não é uma tarefa que envolve apenas a inspiração, o sentar-se para escrever e a correção do texto. Um livro exige muito tempo para a maturação das ideias e muito trabalho para a construir a narração e os personagens que atuam nela.

O primeiro passo para se saber como escrever um livro de ficção é entender como se fundamenta a estrutura de um livro. Isso, a princípio, se resume em estabelecer um arco geral, elaborar uma boa trama e determinar os momentos de viradas nos atos da história.

Nesse artigo vamos falar sobre:

  • O caminho desde a primeira ideia à formação do arco geral da história;
  • Da definição do arco geral à formação da trama;
  • Do encaixe dos pontos altos da trama nos atos da história do livro.

Para se escrever um livro de ficção é necessária uma ideia inicial

Parece ser bem óbvio que é necessário uma ideia inicial para se escrever um livro de ficção, entretanto é bem mais do que pensar de modo raso sobre o que vai ser escrito.

A ideia inicial tem de ser bem-fundamentada. É o momento de liberdade do escritor, onde ele definirá o que vai escrever. A inspiração e busca por referências devem ajudá-lo a criar um “ponta-pé” inicial para seu livro que seja original e que carregue sua identidade.

Não há como estabelecer regras para esse momento porque cada pessoa tem seu modo de ter ideias e de criar. Aliás, não há como estabelecer regras sobre como escrever um livro de ficção; há, porém, como estabelecer alguns padrões que contribuem para uma boa narrativa.

E ter uma ideia original e pensada com profundidade, para que seja completa e tenha uma identidade própria, é um desses padrões. Por isso, dedique tempo ao processo de se ter a ideia. Pense profundamente sobre ela, criando o universo e os tons da sua história. Principalmente, anote. Anote tudo – conselho de quem já esqueceu muita ideia boa por pensar que ia lembrar depois.

Formar a ideia para se escrever um livro de ficção é um caminho único que cada escritor e escritora cruzam sozinhos.

A ideia leva ao desenvolvimento do arco geral da história do livro

Após formar a ideia para se escrever a história do livro, ela deve se transformar em um arco geral: o primeiro passo para a construção da narrativa.

Elevar a ideia ao arco geral é o processo de formar a “coluna” da história, dando suas primeiras nuances e tons. É nesse momento que se estabelece uma linha geral sobre começo, meio e fim.

Exemplo:

Vamos fingir que somos Suzanne Collins por alguns momentos e vamos imaginar que estamos no processo criativo de Jogos Vorazes.

Ideia: uma história inspirada no mito de Teseu e o Minotauro, mas não fantasiosa, onde jovens são dados como tributos. Para uma decisão tão radical assim acontecer, será preciso ter acontecido algo muito ruim no passado. O minotauro será substituído pelos próprios jovens, que deverão se enfrentar. Para que lutas até morte aconteçam, é preciso uma autoridade opressora que obrigue que isso aconteça. Em nossa era contemporânea talvez isso não seja possível, ou não fique tão interessante.

Formação do arco geral: em um tempo distópico no futuro, uma nação onde antes era a América do Norte é dominada por uma Capital autoritária e ditadora que obriga seus distritos a enviar jovens tributos para uma arena, onde se enfrentarão até a morte, até que reste somente um vitorioso. Esses são os Jogos Vorazes, a penalidade pelos distritos terem se rebelado no passado.

À base desse arco geral se torna bem mais fácil desenvolver a trama e os personagens que habitarão esse universo, como também determinar qual será o papel deles na história.

Ao escrever o livro, pense do início ao fim

É muito importante que o final seja bem pensado durante o processo de se escrever um livro. Isso garante que o livro tenha coerência e que a história não se traia ao longo da narrativa. É nesse ponto que entra a criação da trama da história do livro. A trama pode ser definida como os pés que farão a história andar do início ao fim.

O melhor momento para pensar na trama é após a conclusão do arco geral. Pensar em “trama” no sentido literal nos faz lembrar das linhas entrelaçadas que compõem um tecido. Escrever a trama do livro é o mesmo: “tecer” a história fio a fio, organizando-os de modo que os pontos de virada surpreendam o leitor.

Continuando com o exemplo de Suzanne Collins, podemos pensar na trama de seu livro: uma jovem de um distrito pobre se oferece como tributo para salvar a vida de sua irmã pequena. Ela é levada para a arena que, em determinado momento, muda as regras, dando um novo desfecho aos jogos.

Aliás, os pontos de virada são os momentos na narração que uma reviravolta acontece, mudando o rumo da história. Eles são fundamentais para que a trama carregue o leitor para o final do livro. São os pontos de virada que fazem a divisão dos atos da história.

Os três atos básicos para se escrever um livro de ficção

Após a linha geral da trama pensada, é hora de distribuí-la nos famosos três atos de uma história. Eles funcionam como sustentação da narrativa, organizando os momentos-chave da história, tornando-a interessante ao leitor.

O primeiro ato é usado para apresentar o universo criado no arco geral, seus personagens principais e a essência da história. O que o leitor vai encontrar nesse livro? Qual será a grande questão a ser resolvida no decorrer da trama e da história? O primeiro ato termina quando a “grande questão” faz os personagens principais deixarem suas vidas normais e seguirem para a aventura.

A partir daí, começa o segundo ato: os eventos durante a aventura, durante o desentrelaçar da trama. É aqui que os problemas reais dos personagens aparecem, se confrontando situações desafiadoras que os movem para o final do livro.

Geralmente o segundo ato termina em um grande e importante ponto de virada, que conduz a história para o terceiro ato. O terceiro ato se trata do desfecho, onde os segredos são revelados, os problemas são resolvidos e os personagens geralmente sofrem uma transformação emocional, evoluindo ou recebendo suas punições. A trama se resolve por completo.

Eu dividiria Jogos Vorazes da seguinte forma:

  • Primeiro ato: do capítulo 1, passando pelo primeiro grande ponto de virada que é o sorteio de Prim como tributo e Katinss se oferecendo por ela, até o momento em que ela é colocada dentro da arena.
  • Segundo ato: do banho de sangue na cornucópia até o ponto de virada fundamental do livro: o anúncio de que dois tributos do mesmo distrito podem ser vitoriosos.
  • Terceiro ato: da busca por Peeta, passando pela luta final contra Cato e os bestantes, pelo ato de rebeldia de quase suicídio dentro da arena e, por fim, a volta para o Distrito 12 como vitoriosos.

Essa estrutura, como já dito, não é um regra, mas quase todas as histórias a usam quase que naturalmente. Os três atos já estão inseridos na mente dos leitores, de modo que, inconscientes ou não, eles esperam por essa estrutura. Eu só os “trapacearia” se eu tivesse uma outra estrutura que os surpreendessem muito, mas muito mesmo.

Se você quiser saber mais sobre os três atos de uma história, confira esse artigo do roteirista Pedro Riguetti.

Escrever um livro de ficção é muito mais que escrever

Escrever um livro de ficção é muito mais do que apenas colocar palavras em algum lugar. O escritor precisa entender que está criando um universo único e que este precisa ser complexo, ou até complexamente simples, para atrair e conquistar os leitores.

Espero que essas dicas tenham ajudado. Lembre-se de compartilhar esse artigo com seus amigos escritores. Perguntas, sugestões e opiniões: fique à vontade para deixar nos comentários.

Esse artigo faz parte da coluna Entre Autores, com artigos e podcasts sobre escrita criativa e marketing digital para autores. Clique aqui para conhecer.

Sou o autor de Os Renegados, distopia pós-apocalíptica, editor do Central Autoria e locutor do Autoria Podcast. Também sou parceiro da saga de fantasia épica A Crônica Esférica. Webdesigner por formação, procuro compartilhar meus conhecimentos em Marketing Digital com outros escritores para que possamos formar juntos nossas carreiras.
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